sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

EVANGELHO E CULTURA EM ERIC VOEGELIN

Evangelho e cultura em Eric Voegelin 

Jhonathan Taborda


ENSAIOS PUBLICADOS 1966 – 1985 (ERIC VOEGELIN)

Capítulo 7 – Evangelho e Cultura

A Cristandade não é uma alternativa à filosofia, é a própria filosofia em seu estado de perfeição” [1]. Voegelin, em seus ensaios, no capítulo Evangelho e Cultura, nos mostra a relação entre a cultura helênica e a dispersão do Evangelho no “mundo” grego, e a relação inversa que temos hoje na sociedade “moderna”. O filósofo se pergunta porquê o Evangelho não é aceito atualmente e busca nas raízes históricas o porquê da aceitação do Evangelho pelos povos antigos, principalmente aqueles que foram colonizados pelos gregos, o que é de fundamental importância, porque o nascedouro da Filosofia foi em Atenas e os povos que estavam em contato com a cultura helênica de alguma forma absorviam sua cultura, as vezes mesclando nelas partes da cultura helênica, pois assim diz: “O Evangelho parecia oferecer a resposta para a busca do filósofo pela verdade”[2]. Essa verdade que já em Aristóteles identificava-se pela busca do conhecimento, que em seu argumento “Todos os seres humanos naturalmente desejam o conhecimento” [3], nos mostra o que Voegelin identificou como ausência na sociedade atual. 
O Evangelho não é aceito porque houve uma deformação da razão em nome da própria razão, essa deformação causou uma repulsa pelo Evangelho e, por consequência, uma repulsa pela própria razão. No entanto, no período dos Apóstolos os povos helênicos compreendiam que havia uma Ordem no Cosmos independente dos deuses de seus antepassados, essa visão de um ordenamento superior aos deuses culminou na comprovação da  Via Racional da Existência de Deus em Aristóteles, e depois na Alta Idade Média, em Santos Tomás de Aquino na Summa contra o Gentios. Essas vias possibilitam ao homem entender que há um Logos divino, este que ordena todas as coisas, no entanto, as vias são deficientes porque não nos revelam tudo sobre Deus. E quem faz esse papel de nos revelar com perfeição é o Evangelho, por isso sua aceitação foi plausível, pois já se entendia que havia um ordenamento, embora não se soubesse quem Ele era, o que se comprova com a passagem do Livro dos Atos dos Apóstolos, em que São Paulo diz: 
“ Cidadãos atenienses! Vejo que, sob todos os aspectos, sois os mais religiosos dos homens. Pois percorrendo a vossa cidade e observando os vossos monumentos sagrados, encontrei até um altar com a inscrição: ‘Ao Deus desconhecido’. Ora bem o que adorais sem conhecer, isto eu anunciar-vos” [4] 
Assim inicia-se a difusão do Evangelho na sociedade grega, aquilo que os filósofos procuravam agora estava à disposição e fora revelado em Cristo que unifica os homens. Diz Eric Voegelin neste capítulo que a sociedade grega não era a única capaz de reconhecer esse Ordenamento do Cosmos: 
“O mistério da presença divina na existência crescera na consciência do movimento muito antes de o drama do Evangelho  começar; e os símbolos que os evangelistas empregam para sua expressão, o Filho de Deus, o Messias, o Filho do homem, o reino de Deus, estavam historicamente à mão através dos símbolos faraônicos egípcios, reis davídicos, proféticos e apocalípticos, através das tradições iranianas e dos mistérios helênicos. Portanto, o “segredo” do Evangelho não é nem o mistério da presença divina na existência, nem sua articulação através de novos símbolos, mas o acontecimento em sua compreensão inteira e a decretação através da vida e da morte de Jesus” [5]. 
Logo, a presença e os símbolos inerentes a esse ordenamento já era evidente nas sociedades pré-cristãs, em que questões como vida e morte eram recorrentes, e onde a resposta para essas questões foi dada em plenitude com  a morte e ressurreição de Jesus Cristo. Portanto, agora as questões não eram mais materiais, ou seja, esse ordenamento não se encontrava dentro do Cosmos, mas fora dele e isso difere de qualquer outra “religião”, pois com essa descoberta que Deus está fora do universo, se faz necessário uma ponte até Ele, que é Cristo, já bem proclamado como o Caminho, a Verdade e a Vida. Desse modo, só há uma religião possível, uma vez que apenas uma “religa”; o homem preso no cosmos com a Divindade que está fora dele. 
O autor explica ainda mais, que a causa inicial da deformação da razão se deve à gnose, que ao olhar o mundo o vê como algo maligno e que o ser humano através do conhecimento se liberta. Os sistemas gnósticos do século II são “um estado de alienação da realidade, que devem ser mais precisamente caracterizados como um isolamento extracósmico da consciência existencial” [6]. De forma geral, com o avanço da gnose na sociedade, se perde a noção do transcendental e, consequentemente, como a razão sozinha se afasta da busca da Verdade, já não tem os símbolos míticos iniciais e, portanto, há bloqueio para a difusão do Evangelho. Da mesma forma ocorre com o Marxismo, que observa apenas o mundo material e que com a libertação da estrutura destrói a superestrutura. Há neste caso, uma influência grande da gnose no marxismo que ao avançar deforma a razão e tudo se torna disputa de poder entre proletariado e burguesia.

Referências:

[1] Ensaios Publicados 1966-1985 – Eric Voegelin, Capítulo 7, página 218, Editora É Realizações.
[2] Ensaios Publicados 1966-1985 – Eric Voegelin, Capítulo 7, página 218, Editora É Realizações.
[3] Metafísica – Aristóteles, Capítulo 1, página 42, Editora Edipro.
[4] Bíblia de Jerusalém, Atos dos Apóstolos 17,22-23.
[6] Ensaios Publicados 1966-1985 – Eric Voegelin, Capítulo 7, página 261, Editora É Realizações.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

UMA VELHA E UMA NOVA JORNADA: CONCLUSÃO DA FACULDADE



Neste momento, uma sensação inusitada me invade, um sentimento desconhecido, uma mistura de alegria e temor. Finalmente, terminou esse período da minha vida que durou exatamente quatro anos. Longos anos? Curtos? Difícil dizer. Para muitos, passar por uma universidade é uma conquista muito sonhada. Para outros, é um requisito necessário para viver. Mas para mim, foi uma batalha. Não porque foi "difícil", no sentido que é comumente atribuído. Admiro aqueles que passam por uma universidade e realmente enfrentam grandes dificuldades, pois se deparam com um currículo que, pelo menos minimamente, leva a sério o conhecimento e a verdade (o que não foi o meu caso). Mas afinal, qual foi minha "batalha"? Foi enfrentar um combate que exige grande prudência. Um combate externo, mas, sobretudo, um combate interior. Esse combate remete a uma realidade longeva, comum aos perseguidos por causa da verdade. Viver em uma época que despreza e desconsidera de modo absoluto a existência da verdade (absoluta!) pode trazer consequências danosas à alma. Adentrar em uma universidade pode ser um grandioso combate espiritual para uma alma cristã, a qual é vilipendiada neste ambiente hostil. Não surpreende nem um pouco que em um discurso presente na minha colação de grau, tenha-se ressaltado a importância do "bem", do "belo" e do "amor", sendo este último substituído pelo verdadeiro componente da tríplice: a verdade. O amor é inseparável da verdade, mas é claro que uma sociedade que acredita que o amor está separado do sacrifício, não é capaz de compreender essa relação. Para a alma cristã que vive unicamente pelo amor e pela verdade, frequentar o ambiente universitário é enxergar toda a miséria dessa incompreensão, deturpação, desprezo, ilusão. É deparar-se, muitas vezes, com uma falsa e vazia intelectualidade, com uma imoralidade tremenda e uma perversão que as vezes parece sem limites. E como poderás tu, ó alma cristã, preservar-te pura e imaculada diante disso? Buscando à Cristo, a própria Verdade. Minha trajetória pela universidade foi marcada por altos e baixos, mas não permiti que minha alma fosse corrompida pela mentira. Principalmente os últimos anos, foram marcados por muita oração e edificação espiritual, a qual é imprescindível para uma vida intelectual. Cumpri com todos os meus deveres enquanto acadêmica, prestei atenção nas aulas, realizei todos os trabalhos, avaliações, apresentações, estágios, leituras e interações. Mas não deixei de buscar a verdade. Sabia desde antes de adentrar na universidade, que raramente a encontraria lá, por isso, li livros, confrontei ideias e persegui o verdadeiro conhecimento, o qual encontra-se nos ombros de gigantes; aqueles mesmos que são tão desprezados, caluniados ou simplesmente desconhecidos por parte do corpo acadêmico. No entanto, sinto que fiz pouquíssimo. Surge então um sentimento paradoxal: o do dever cumprido se despedindo e o do dever a ser cumprido me chamando. Qual será minha nova jornada? Talvez uma boa parte dela seja ainda desconhecida, mas de uma coisa estou certa: ela estará fundida à verdade, embora vá cruzar ainda com demasiadas contradições.


O artigo de TCC está disponível aqui.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

MULHER CATÓLICA




Mulher católica
De alma modesta
Consigo travou uma guerra
Mas a virtude a liberta.

Filha de Maria
Guardou sua intimidade
Preservou sua castidade
Ganhou uma pérola.

Templo do Espírito Santo
Seu único ideal é a santidade
E para alcançar o Céu
Renuncia a toda promiscuidade.

Para ela a moda é vã
A carne inimiga
O mundo passageiro
Seu único objetivo é ser moldada pelo Oleiro.

De coração reto
Sua pureza é verdadeira
Não teme os falsos juízos
Sabe que a santidade não é brincadeira.

Mulher de pudor
Renunciou a mentalidade moderna
Seu propósito?
A bem-aventurança eterna.

Escrito por Beatriz Back

sábado, 9 de março de 2019

A HIPÓTESE DO PÊNDULO





Ao perturbar um pêndulo, o mesmo oscila de um lado para o outro, no entanto, depois de determinado período, há o repouso no centro, porque ali há o menor nível de energia. O universo foi constituído para se manter em equilíbrio entre seus sistemas de forças e as suas energias. No princípio, o primeiro Homem e a primeira Mulher eram livres e não precisavam escolher, não existia escolha, pois em tudo que faziam, faziam a vontade de Deus, já que eram livres Nele. Quando nossos primeiros pais decidem escolher, a escolha deslocou o pêndulo para um lado e desde o Colapso nós precisamos tomar escolhas. Houve nesse momento o certo e o errado, porque antes apenas existia a Verdade. Quando nós escolhemos partimos da premissa de que existe um “lado” e que cada escolha que fizemos elimina a outra, ou seja, cada escolha que fazemos é mutuamente exclusiva. Por exemplo, a Fé e a Razão, para muitos apenas a Fé (Fideístas) e para outros apenas a Razão (Racionalistas). Esse embate é facilmente explicado quando o observamos com a Hipótese do Pêndulo.

Nossa humanidade devido ao pecado original não sabe mais escolher, no entanto precisa escolher o tempo todo, há algo dentro de nós que procura a Verdade, nossa alma anseia por Ela, mas devido as nossas tendências não conseguimos olhar com clareza para a Verdade e tentamos encontra-la em algum “lado. Mas se escolhemos um excluímos o outro, como acontece com os racionalistas e fideístas, eles sempre escolhem um lado e negam o outro. É claro que isso acontece porque há uma tensão entre eles, mas nem sempre foi assim, pois a Igreja instruída pela Verdade encarnada, é a responsável por desfazer a tensão e conciliar ambas e fazer com que o pêndulo retorne ao seu estado de repouso sem nenhuma perturbação e descolamento. 

Mas por que não volta naturalmente ao seu estado de repouso como um pêndulo físico? Isso se explica com o pecado primeiro, que já no inicio deslocou o pêndulo para um lado, e para que o mesmo voltasse ao seu estado original foi necessário que o próprio Criador o concertasse. Porém, Ele não faz sozinho, sendo também a humanidade responsável pelo deslocamento do mesmo. Essa mesma humanidade deve participar no concerto e, ao instituir sua Igreja, Cristo autoriza que Ela continue seu trabalho na Terra para que o pêndulo não mais se desloque. Logo, a Verdade não é uma escolha, ela deve ser acolhida sem ser escolhida, porque o mesmo Deus que se revela nas Escrituras é o mesmo Deus que Criou a natureza. Sendo Ele Deus, Ele não engana e não se engana, por isso a heresia se encontra na escolha, porque um herético é aquele que escolhe uma verdade aparente, ou seja, é apenas uma parte da Verdade. Mas, esse herético, ao escolher uma parte dela nega o restante da Verdade. Esse pecado se encontra próximo do Pecado contra o Espirito Santo, porque ao negar a Verdade por inteira, nega-se a própria salvação e automaticamente nega-se o perdão eterno.

Escrito por Jhonathan Taborda

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

A MEDIDA DO AMOR É AMAR SEM MEDIDAS

28 fevereiro 1


Quão grande é o seu amor por Cristo?

Aquele que se deu inteiramente por nós na Cruz merece todo o nosso amor, todo o nosso ser. Não há como amar sem se doar, e a doação a Deus não deve ter limites, pois, Deus não colocou nenhum limite para se doar a nós; tanto que se fez homem, para cumprir em plenitude o Santo Sacrifício.

O Evangelho de hoje (Mc 9, 41-50) revela o ápice dessa doação. Se quereis amar a Deus, nada havereis de querer mais do que passar a eternidade com Aquele que é o próprio amor, e se nada pode ultrapassar esse anseio, coisa alguma se imporá frente à isto, de modo que os limites se esvairão, a ponto de cortares uma mão, um pé, um braço e arrancar até os dois olhos. Quê importa a materialidade passageira dessa vida comparada a eternidade no Reino de Deus? As tristezas logo passarão e serão consoladas pelo Senhor, se não houver receio em renunciar à vãs alegrias.

Pequenas renúncias já são capazes de comprometer o bem-estar do homem. Mas quando são feitas com amor, os espinhos que perfuram a carne são capazes de exalar um doce e suave perfume, e a dor é transformada em amor. Não é fácil fazer como os santos fizeram, mas não podemos deixar de imitá-los, pois assemelhar-se á eles é tornar-se semelhante Àquele que se entregou por nós.

Nossas atitudes podem escandalizar nosso próximo, e sobre isso, Nosso Senhor é bem claro: “se alguém escandalizar um desses pequeninos que creem, melhor seria que fosse jogado no mar com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço”. Nossos pecados podem escandalizar os nossos irmãos, aqueles que ainda são pequenos na fé, por isso, é necessário olharmos para nós e questionarmos: “Estou sendo espelho de Deus?”. Nossos pensamentos, atitudes, palavras e o nosso corpo de modo completo deve exalar o perfume do Espírito Santo.

Arrancar uma mão, um pé, um olho, às vezes significa fugir de más conversas e más companhias, desviar certos pensamentos impróprios, desviar os olhos de cenas inconvenientes, silenciar em momentos inadequados, cobrir o corpo com modéstia e pudor... Aquilo que vestimos, falamos e o modo que nos comportamos são capazes de levar junto de nós o outro a cair em pecado. Não sejais hipócritas, não é inocente aquele que leva o outro ao pecado, atentais ao que Jesus disse, ai daquele que cometer escândalo!

Pequenas e grande renúncias são necessárias. Os espinhos podem doer no início, mas não vos preocupeis, o Senhor mesmo encarregar-se-á de tornar os espinhos que perfuram vossa carne mais suaves, e o doce e suave perfume que surgirá será o do amor.

Não esqueçais: bem-aventurados os que que choram, os que sofrem perseguição, os que têm fome, os pobres de espírito... Nosso Senhor Jesus Cristo consolará todos os que sofrem em Seu Nome, e finalmente, Aquele que amou sem medidas será amado sem limites. 

"A medida do amor é amar sem medidas" Santo Agostinho

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

BREVE EXORTAÇÃO ÀS IDEOLOGIAS

20 fevereiro 0


Mais vale a ação benevolente do que a reclamação rigorosa! Atualmente, notamos “tradicionalistas” mais preocupados com a conduta das outras pessoas do que com o amor ao próximo. Querem uma Igreja que lhes sirva, no entanto, não querem servir a Igreja, e quando há uma pobre alma sedenta do amor de Cristo e o servindo no altar tudo o que essas víboras fazem é reclamar e destilar o seu veneno atacando mais uma vítima. Não sou “progressista”, tenho amor à Tradição, mas não me afeiçoo por esses grupos de palpiteiros que só sabem exigir a perfeição de uma humanidade imperfeita, são crianças egocêntricas e sua tarefa é reclamar e apontar o que está errado. Não obstante, não sujam suas mãos, querem uma pureza externa e um coração frio; estão “limpos”. Entendi que nesse percurso temporário que é a vida humana, o mínimo que se faz deve ser bem feito para Nosso Senhor Jesus Cristo, não reclamar e fazer tudo com amor, ser casto, pobre e obediente e amar o próximo mesmo quando ele te fere com o veneno de sua língua podre. Somos odiados e rejeitados pelas ideologias impregnadas dentro da Igreja... “Modernistas” que balbuciam línguas errantes, “tradicionalistas” acusadores e frios, heréticos e até mesmo apostatas. Mas tudo isso passa porque só Deus basta e sua Igreja até o fim dos tempos. Queria eu me localizar em algum grupo, mas sei que a Verdade não é uma escolha, porque se é a Verdade eu não preciso escolher, devo apenas acolher e obedecer a Aquele que morreu por mim!

Escrito por Jhonathan Taborda

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

O REI ESCONDIDO

12 fevereiro 0

Diante do altar, nas espécies do Pão e do Vinho,
Encontra-se o Rei da coroa de espinhos,
Revestido de esplendor e glória aos que enxergam além do véu,
Sendo levados como que ao céu.

Na indissociável união entre o presbitério e o calvário
Há um Deus que torna-se presença real,
Alimento espiritual,
Que é consequência direta do Santo Sacrifício.

Vivo na Igreja continua sua obra salvífica,
Com a finalidade de nos transformar e saciar,
E sobretudo, amar.

Amor que antecipa o paraíso,
Toca-nos em união íntima
Correndo o risco de fazer-se novamente vítima.

Escondido na aparência de pão,
O Rei escondido revela sua humildade,
Trazendo-nos o céu,
O qual chega a nós por meio de sua infinita Bondade.

Na perfeita comunhão,
É fonte de vigor,
Remédio da imortalidade,
Que dá vida ao coração.

Diante deste mistério de fé,
Do amor encarnado,
Toda reverência prestada é pouca,
Todo joelho dobrado é irrisório,
Toda adoração insuficiente.

Ao Santíssimo Sacramento,
Graças e louvores a todo momento! 


















Escrito por Beatriz Back

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

O AMOR DIVINO ENCARNADO: A SAGRADA EUCARISTIA COMO SACRAMENTO DE CARIDADE

01 fevereiro 0


“O amor Divino Encarnado: A Sagrada Eucaristia como sacramento de Caridade” é uma obra escrita pelo Cardeal Raymond Burke, publicado em 2017 pela Editora Ecclesiae. Esse livro trata-se de um tratado espiritual que resume o Magistério do Papa João Paulo II, em sua encíclica Ecclesia de Eucharistia, e do Papa Bento XVI em sua Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis. 

A matéria tratada neste livro é preciosíssima para a compreensão da Sagrada Eucaristia em plenitude. Ultrapassando a fronteira conceitual, estende-se á reflexões teológicas e filosóficas a respeito das relações existentes entre o Corpo de Cristo, a Santa Igreja, os Sacramentos, a Virgem Santíssima e a vida espiritual e pessoal do cristão, que deve ser moldada pela Comunhão com Cristo. É através da participação sacramental no Banquete Eucarístico que o cristão é capaz de melhor compreender o que fazer para evangelizar, em um mundo ateu, materialista e secular – missão tão defendida pelo Papa São João Paulo II.
A hóstia, que é alimento espiritual de nossas almas, é a nossa força e deve ser um sinal de esperança, como coloca o Papa:
“Nós sinais humildes do pão e do vinho transubstanciados no seu corpo e sangue, Cristo caminha conosco, como nossa força e viático, e torna-nos testemunhas de esperança para todos. Se a razão experimenta os seus limites diante deste mistério, o coração iluminado pela graça do Espírito Santo intui bem como comportar-se, estranhando-se na adoração e num amor sem limites” (Ecclesia de Eucharistia, n°62).
A primeira parte, após o prefácio e a introdução, é dedicada a reflexões sobre a Ecclesia de Eucharistia, encíclica que manifesta a Eucaristia como “fonte e centro da vida cristã”. Nessa seção, há um destaque para aquilo que é a Eucaristia e para a sua função na Igreja.

A verdade profunda que se esconde no Sacramento da Sagrada Eucaristia é “a sua inseparabilidade da Paixão, da Morte e da Ressurreição de Cristo”, que se encontra na Santa Missa, sacrífico do Calvário. Por isso, comungar não é simplesmente participar do Banquete Eucarístico, é “uma participação no sacrifício de Cristo”, pois, o sacrifício do Calvário e o sacrifício da Missa são indissociáveis. Para crer neste mistério de fé, é necessário ao cristão a verdadeira fé, que vê além do véu das espécies do pão e do vinho, para enxergar Nosso Senhor Jesus Cristo substancialmente presente nas espécies transubstanciadas pelo Sacerdote, que atua in persona Christi, em comunhão com o Espírito Santo.

A última Ceia, que é a primeira Eucaristia, continua a se repetir em cada Santa Missa celebrada pelo mundo, sustentando assim a unidade da Igreja, dos vários membros de Cristo. Ao comungar, tornamo-nos um só corpo com Cristo – Cabeça e membros, - portanto, nos unimos com todos os nossos irmãos e irmãos no mesmo amor.

Esta repetição da Última Ceia evidencia a apostolicidade da Eucaristia, a qual “chegou até nós através da sucessão ininterrupta do ministério apostólico”. O Sacramento da Ordem, instituído por Cristo antes de sua Paixão, preserva o sacrifício da Missa e permite a comunhão com Cristo a aqueles batizados que convergem com a fé Católica e estão aptos a receber a Sagrada Eucaristia. Para obter esta “mínima dignidade”, todos os esforços e toda reverência nunca é excessiva. Nada melhor do que recorrer àquela que é a “mulher eucarística”, Mãe de Deus, quem primeiro recebeu a Eucaristia. Através de sua maternidade eclesial e da escola de Seu Imaculado Coração, ela pode nos levar a ter uma verdadeira Comunhão com seu Filho e a oferecer uma perfeita ação de graças – inspirada nos moldes do Magnificat.

O Papa São João Paulo II ainda nos recorda da dignidade da celebração Eucarística, a qual deve ser inspirada na Última Ceia: simples e solene. “Ela é o modelo para os ritos que foram se desenvolvendo na Igreja ao longo dos séculos cristãos”, que por sinal, acabaram por sofrer alguns abusos pela criatividade e adaptação dos sacerdotes. O conteúdo dessa matéria foi muito bem exposto pelo Papa Emérito Bento XVI, em sua Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis, em que coloca a estrutura da celebração Eucarística, apresentando as exigências que devem ser respeitadas pelo Padre e, também, observando algumas dificuldades e problemas que ocorrem durante a Santa Missa, as quais surgiram após o Concílio Vaticano II (exemplo: inculturação).

Além disso, o Cardeal Ratzinger deixa claro o modo do cristão prosseguir para ter uma participação ativa, plena e frutuosa na Missa, que se resume em estar profundamente interiorizado, recolhido e em silêncio durante alguns momentos; e também em realizar jejum eucarístico e a confissão sacramental.

Toda esta obra, escrita pelo Cardeal Burke, chama a atenção para a verdade sobre a Sagrada Eucaristia, que é o Sacramento central da Igreja, sendo fonte e centro da vida cristã. O livro é capaz de conduzir o leitor cristão a compreender verdadeiramente Nosso Senhor sacramentado e a eficácia de sua comunhão, e a sentir-se levado a ter uma vida eucarística, de caridade perfeita.

Para finalizar, deixo-vos uma fala do Papa São João Paulo II, que exprime a verdadeira adoração que devemos ter diante de Nosso Senhor Jesus sacramento:
“Diante desta extraordinária realidade ficamos atônitos e abismados: como é grande a humildade condescendente com que Deus Se quis ligar ao homem! Se nos detemos comovidos diante do Presépio contemplando a Encarnação do Verbo, como exprimir o que se sente diante do altar onde, através das pobres mãos do sacerdote, Cristo torna presente no tempo o seu Sacrifício? Só nos resta ajoelhar e em silêncio adorar este mistério supremo da fé.” (São João Paulo II, Carta do Santo Padre aos Sacerdotes por ocasião da Quinta-feira Santa de 2004, 28 de março de 2004, n° 2).


terça-feira, 15 de janeiro de 2019

EQUILÍBRIO DA PERFEIÇÃO


É possível perceber pelo infinito céu que se estende sobre nossas cabeças, pelas cores vibrantes de tudo o que há de mais natural, pelo canto dos pássaros e pelos movimentos dos animais, pelo perfume das belas flores que florescem em uma espontaneidade quase mágica, que há vida. Vida que evidencia um ciclo que sobrevive de maneira misteriosa, e que nos arrasta ao ceticismo de que seu surgimento, movimento e perpetuidade, se fundamenta em algo tão simples, e paradoxalmente tão complexo, como as explicações da ciência.

A vida que nos é apresentada em seu devir nos dirige à transcendência dela própria, desvelando a majestade de seu Criador. Experiência ainda mais intensa é quando nos deparamos com o ser humano. Criatura inédita. Nele se encontra a essência do transcendente, que por vezes parece estar nebulosa e sombriamente escondida por algo que a impede de manifestar-se em sua plenitude. No entanto, expressivamente a singularidade da vida se encontra ali, no mais íntimo do homem: na sua inteligência e vontade, na sua racionalidade e espiritualidade. Uma união que não está presente em qualquer outro lugar debaixo do céu e nos limites da finitude. Apenas no ser humano, criatura moldada com amor infinito pelas mãos do Oleiro.

Se sobrepõe, todavia, um grande porém, quando a pureza imaculada da obra criada é manchada pela soberba de Eva, ao avistar uma árvore que a fez desejar para si um fruto proibido. Grande tragédia, a qual implementa a revolta da razão e inteligência humana contra o seu próprio Criador. Surgem os vícios, a perversidade, a malícia, a iniquidade, a desumanidade. Humanidade que se despedaça, rompendo o equilíbrio da perfeição, entre o que é corpóreo e o que é espiritual.

Grande reviravolta ergue-se séculos depois, quando a Nova Eva, ao avistar a árvore da Cruz, não deseja para si o seu fruto, - que também é o fruto Bendito de seu ventre – mas o entrega inteiramente a Deus. Daquela árvore surge o fruto redentor, capaz de destruir toda espécie de iniquidade e desordem humana. Fruto que lava e purifica a miséria humana adquirida no pecado, capaz de fazer brotar toda espécie de semente virtuosa, na qual resplandece a beleza originária da obra criada.

Este fruto Bendito dissipa a névoa que se sobrepõe na bela e mais singular obra criada, restabelecendo a vida do espírito em equilíbrio à vida dos sentidos, daqueles que decidem-se tornar solos férteis, terrenos fecundos para nascer a árvore da vida – o amor. 


Beatriz Back

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

ATÉ QUANDO?

27 fevereiro 2


No princípio era o Amor, e o Amor se rebaixou ao que era finito para doar-se a si mesmo pelos que eram finitos, libertando-os do fim da morte ao abrir-lhes a porta para a eternidade, para uma eterna comunhão de amor com Ele. A porta está aberta, e Ele nos chama: "Vinde até mim!". E embora sua proposta seja de máxima excelência e satisfação, muitas vezes a imperfeição do homem o induz a recusá-la.
Até quando?
Até quando o homem irá recusar a doce bebida do amor, para tomar o cálice de sua própria destruição? Até quando o homem irá aceitar sujeitar-se à uma vida pobre e materialista, quando lhes é oferecido o paraíso? Até quando o homem beberá da alegria em fontes mundanas enquanto lhes é oferecido beber da alegria diretamente da fonte da alegria? Até quando o homem procurará o amor nas coisas visíveis, quando ele está nas coisas invisíveis e perenes? Até quando o homem manter-se-á diante da porta? O que o impede de entrar?
Mesmo quando lhes é dado a graça de ver e entender a maior prova de amor que já lhe foi dada, o homem recusa-se a aceitá-la por inteiro. O que foi realizado jamais será apagado. A porta que foi aberta jamais será fechada. Porém, o homem tem de decidir passar por ela.
Quem abriu a porta os espera do lado de dentro, no entanto, seu amor é tão grandioso que Ele vem buscar os homens no meio do caminho e levá-los ao que lhes foi preparado. Seu convite é doce, e embora seja como uma brisa suave e um vento impetuoso, ainda chega aos seus ouvidos a triste e firme resposta de recusa, como outrora o foi e deu início a dolorosa separação.
No início não havia o "lado de fora", até abrirem uma porta e fechá-la, levando através dela para fora todos os filhos, exceto um. Dispersaram-se todas as ovelhas do rebanho, até que, o Filho, o Cordeiro, foi imolado para a união de todos. Ele, com seu sacrifício, abre a porta que durante muito tempo estivera fechada e trancada. Desde então, muitos passaram através dela, voltando ao seu verdadeiro lar. Mas muitos ainda estão do lado de fora, ludibriados com o que encontraram deste outro lado. Já outros, estão perdidos e não encontram o caminho de volta para casa. Quando não lhes vem o ceticismo a fazê-los duvidar da casa, suas manchas os fazem recusar o convite. Outros estão feridos, mas principalmente à estes é dado a dádiva de chegarem até a casa. Não por méritos próprios, mas por sua condição os dar o privilégio de receber um auxílio Daquele que tem um coração inteiramente misericordioso.
Até quando continuarão do lado de fora?
O Perfeito sofreu pelos imperfeitos, o Justo sofreu pelos injustos, o Santo sofreu pelos pecadores. E os imperfeitos, injustos e pecadores não reconhecem seu amor. Mas o seu grandioso amor, que o levou a morte, não morreu na cruz. Seu amor nunca morreu, eterno ele é, e incorruptível ele é. Seu amor brota de uma fonte que jamais deixa de jorrar, mas que está sempre se derramando. E quão abençoados e felizes são aqueles lavados pela água que jorra dessa fonte, pois é a água viva, a qual daquele que dela beber jamais terá sede. O amor que jorra dessa fonte sacia o coração humano de forma perpétua e completa. E Aquele de quem vem este amor que se derrama, não desiste de sofrer novamente o calvário para trazer as ovelhas perdidas de volta ao lar. Se restasse apenas uma ovelha, não recusaria beber do cálice para trazê-la de volta ao rebanho. Quão grandioso e espantoso é o seu amor, que morre para dar a vida, que tem misericórdia infinita! Amor que não desiste, mas que nada impõe. Amor que tem pressa, mas espera. Amor que é abundante e constrange.
Até quando resistirão a beberem da fonte? Até quando recusarão as delícias da eternidade para desfrutarem de imundícies terrenas? No entanto, quem manter-se-á firme e com o coração endurecido, quando diante de sua própria miséria reconhecer a sublime e irradiante força da verdadeira Caridade?!
Escrito por Beatriz Back

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

A RESSURREIÇÃO DE JARDINS

06 fevereiro 1

Cada ser humano possui dentro de si um jardim, ou um jardim em potência, pois a natureza humana segue as leis da jardinagem, necessitando de um cultivo frequente que visa um nascer e renascer diário. Para tal, é indispensável entender que as flores e os frutos não nascem de imediato, mas levam um tempo determinado, e é o amor que faz isso acontecer, que faz as flores florescerem e os frutos amadurecerem. O amor é o adubo, mas de pouco o vale, se o jardineiro não dominar as técnicas necessárias para o cultivo: paciência, perseverança, confiança... E mais do que boas habilidades, é necessário coragem e inteligência, para perceber que existem plantas venenosas enrustidas de boa aparência que exalam um perfume doce, mas que também exalam um veneno prejudicial. Inteligência para perceber que há plantas que embora sejam bonitas por fora, não tem raiz alguma; que há plantas muito bem enraizadas no solo, mas que contaminam e envenenam todo ele, colocando em perigo toda a sua fertilidade. Sabedoria para perceber que há plantas que tem raízes profundas, mas que nunca deveriam ter nascido, e coragem para arrancá-las desde sua raiz, por mais difícil que seja e força que tal tarefa demande.

Nós somos assim, como jardins, e precisamos seguir a lógica da jardinagem para sobreviver. Precisamos ser bons jardineiros para manter o nosso jardim um verdadeiro jardim. Precisamos ser cultivados dia após dia para não morrer.

E então, como está o seu jardim? Ele é cultivado por você? Ele é bem cuidado? Ele está em boas mãos? Nele há flores, árvores, plantas que dão bons frutos? Ou, não há um jardim?

Sem o principal elemento que dá a vida ao jardim, que faz as sementes transformarem-se em plantas que darão bons frutos, não há jardim. Se não há o adubo da vida, ou seja, o amor, não há jardim. Sem o amor, as plantas morrem, os frutos apodrecem, as árvores caem, e tudo desaparece, transformando-se em um deserto. Quem não mantém o amor não cultiva o jardim, matando-o. E quem alimenta o elemento contrário ao amor, mata-o de maneira mais rápida ainda.

Se o amor é o elemento principal, se é ele o princípio de tudo, então, tudo o que provêm dele também é bom. Mas tudo o que dele não provém é mau e prejudicial. Portanto, o jardineiro tem de ser perspicaz, tem que ter olhos aguçados para a maldade e um coração bom e aberto para o amor e para a bondade. A sabedoria, que é adquirida ao longo das experiências vividas, é o que fará o jardineiro entender que uma planta que não deveria nascer nasce, tem de ser arrancada pela raiz. E que quando algo não cresce como deveria crescer, ou quando algo cresce sem raízes profundas, assim deve-se proceder da mesma maneira, arrancando. Se tudo o que restar for um deserto, então, o jardineiro terá que plantar novas sementes. E é o amor que fará novas sementes brotarem, e é o que fará as transformarem-se em plantas que darão bons frutos.

Talvez, ao final de compreender tudo o que se exige no cultivo de um bom jardim, você se dê conta de que não conseguirá ser um bom jardineiro tão facilmente. Parece uma tarefa difícil para se fazer sozinho, parece exigir uma sabedoria que só se adquire ao final da vida e habilidades que só são adquiridas após muitas tentativas e erros. Mas, não é preciso fazer isso sozinho. Além do mais, não é aconselhável, nem prudente, e talvez nem mesmo possível. Porque existe um Jardineiro; um Jardineiro que é um especialista grandioso no cuidado de jardins. Ele costuma trabalhar ao lado do dono do jardim, auxiliando-o em todas as tarefas. Mas se o seu dono acabou por descobrir que o seu jardim deve tornar-se um deserto, arrancando tudo o que nele há para recomeçar novamente, ele deve deixar o Jardineiro trabalhar sozinho, pois ele é especialista na recuperação e restauração de jardins. Ele é o único capaz de restaurar o que está morto e dar a vida. Como uma mãe que concebe a vida e como a parteira que traz a vida ao mundo, o Jardineiro concebe a vida, concretizando-a em um jardim novo.

O dono do jardim deverá matar tudo o que de ruim há em seu terreno, e em seguida, deverá permitir que o Jardineiro plante novas sementes. Como o barro nas mãos do oleiro, deve deixar-se modelar. O Jardineiro sempre consegue restaurar jardins que estão morrendo e desertos inabitados de qualquer coisa além de escuridão, basta que confiem nele. Ele consegue porque possui o elemento principal que dá a vida: o amor. E é esse amor que faz as sementes ressuscitarem na terra, ressuscitando assim o jardim. Agora, um novo jardim. Se a ressurreição requer a morte, sempre resulta em vida, e assim o é com todos os jardins que são comandados pelo Jardineiro. De uma aparente catástrofe, eis que surge a eucatástrofe. De um deserto, eis que surge um jardim.

Escrito por Beatriz Back

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

NO RECÔNDITO DE MEU DESERTO


Foi caminhando no deserto de minha própria alma que eu encontrei-Te. Só que não fui eu quem Te encontrei, mas antes, Tu me encontrou. Estavas me esperando no local certo, de modo que eu O encontrasse no momento certo. Pois, antes de encontrar-Te, era preciso que eu atravessasse uma parte desse deserto sozinha. A partir do instante que eu O encontrei, tudo se tornou mais fácil. Tu me destes a mão e fomos juntos caminhando até o fim, até encontrar em meio à esse deserto tenebroso o oásis. Ali foi onde tudo se iniciou... Aos poucos, juntos, nós fomos ajeitando o terreno. Plantastes sementes com raízes firmes e profundas, e acompanhada de Ti eu estive dia após dia a regar esse terreno para que crescessem coisas novas. Demorou um pouco, mas quando me dei conta já havia um jardim lindo repleto de diversas flores e árvores. Haviam rosas que exalavam um perfume doce, que eram um acompanhante muito agradável ao nosso passeio por esse jardim. Dia após dia, Tu estavas comigo, passeando, me ensinando e me instruindo, me auxiliando na retirada das ervas daninhas e plantando comigo raízes profundas que cresceriam e dariam bons frutos. Tudo mudou e é Tu que mantém tudo isso vivo. Sem Ti as flores murcham, os frutos apodrecem, as árvores morrem, o jardim se desfaz e vira um terreno vazio. Finalmente, o oásis que era só uma parte, estendeu a tal ponto que extinguiu o deserto. Então já não havia mais vazio. A zona de morte que havia se formado foi incendiada pelo fogo de Teu amor.
No recôndito de meu deserto se formou um jardim e Tu és o autor principal dessa obra, Jesus.
Escrito por Beatriz Back

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

SAL E LUZ DO MUNDO



Jesus deixa uma mensagem muito importante àqueles que creem nEle e o seguem. Ele diz: "Vós sois o sal da terra" (Mt 5,13) e "Vós sois a luz do mundo" (Mt 5,14). Contudo, será que estamos sendo verdadeiramente sal e luz para o mundo? Ou será que o sal já perdeu o seu sabor e a luz ofuscou? Afinal, o que significa ser sal e luz?

As propriedades do sal são as de dar o sabor e preservar os alimentos, e a tradição bíblica viu nisso um símbolo da sabedoria. Qual seria esta sabedoria? A própria Palavra de Deus e a Boa-nova que anuncia o Evangelho. A questão é como devemos carregar essa sabedoria. Carregá-la em nossos lábios é o bastante? A resposta está um pouco adiante, em Mateus 7,24: 

Assim, todo aquele que ouve estas minhas palavras e as pratica será comparado a um homem sábio, que construiu a sua casa sobre a rocha.

Jesus está dizendo que é necessário colocar em prática a Palavra de Deus para ser um homem sábio. Sendo assim, para sermos verdadeiro sal, a sabedoria tende estar personificada em nossa vida.
Se a sabedoria está presente apenas em nossa mente ou até mesmo em nossos lábios, somos como o sal que perde o seu sabor. Se anunciamos palavras de sabedoria e praticamos atos contrários à ela, somos o sal que se tornou insosso.

Assim também segue o entendimento da luz. Ainda mais explicitamente, a luz evoca à conduta diária dos seguidores de Jesus, que devem estar em concordância com aquilo que diz o Senhor. São Paulo nos diz que "Outrora éreis trevas, mas agora sois luz do Senhor. Comportai-vos como verdadeiras luzes" (Ef 5,8). Mas esta luz não deve estar apenas refletida em atitudes, mas também deve refletir no testemunho. Assim, seremos verdadeiro sal e verdadeira luz para às nações do mundo.

Não obstante, é essencial reconhecermos que esta luz não é nossa. Ela é uma luz refletida, ela é apenas uma parte da luz, um reflexo da grande Luz. Em João 1,9 diz que "O verbo era a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem". Portanto, é o Verbo, o Logos, que nos ilumina e nos faz ser a luz do mundo. É o Espírito de Deus em nós que produz essa luz. Assim, é necessário deixar-se usar por Cristo, de tal modo a dizer: 

Já não sou eu quem vive, mas Cristo é que vive em mim (Gl 2,20)

Precisamos ser como espelhos, que refletem o brilho da glória de Deus. Assim, seremos um símbolo da vida de Deus neste mundo, pois, "a vida era a luz" (Jo 1,4).

O mandamento do Senhor é claro quando entendemos que somente aqueles que manifestam a posse do Espírito de Deus, podem convencer outros de que a vida do espírito vale a pena ser vivida. Sendo sal e luz para as nações, seremos um sinal da vida de Deus para um mundo decaído, e para isso, é necessário crucificar-nos para nós mesmos para que Cristo possa reinar em nosso coração.


terça-feira, 9 de janeiro de 2018

AMOR: ONDE TUDO COMEÇOU



Nada mais doce do que o amor, nada mais forte, nada mais sublime, nada mais amplo, nada mais delicioso, nada mais perfeito ou melhor no céu e na terra; porque o amor procede de Deus, e em Deus só pode descansar, acima de todas as criaturas. (Imitação de Cristo, Tomás Kempis, p.124)

Nada existe verdadeiramente e subsiste sem o amor. Já com o amor, tudo permanece e subsiste para sempre. Pois o amor, é o fundamento e princípio de toda criação. Toda criatura que pisa sobre a terra foi criada em um transbordar de amor advindo dAquele que é o próprio Amor. Assim, toda criatura fora criada no amor, pelo amor e para o amor. Sendo este o fim último para o qual fomos concebidos, sendo esta a vocação de todo ser humano: amar. Amar e ser amado. Tudo gira em torno deste ciclo de amor, que começou e só pode começar nAquele que é em essência pura e em totalidade perfeita o próprio amor: Deus, o Criador.

Diante de um mar abrigado de pontos de interrogação ambulantes, é natural nos perguntarmos "Por que eu fui criado?" ou "Para que fui criado?". Estas respostas que procuramos jamais serão encontradas se não nos voltarmos àquilo que transcende toda a criação, e as respostas jamais serão verdadeiramente compreendidas se não voltarmos nosso olhar para dentro de nós ao sermos tocados por Aquele que transcende a criação. É só quando o Eterno toca o finito que as ondas do mar de dúvidas se acalmam, pois, o finito é capaz de enxergar à infinidade que experimentará em relação com o Eterno. Relação esta que sempre fora sonhada por Ele, mas que fora rompida por um desejo pobre, tornando o que era infinito finito.

Nós, finitos, nós desejamos subsistir sem o Amor, mas esta é a ordem de tudo que há: nada subsiste sem o amor. Porque tudo é sujeito à corrupção se estiver fundamentado naquilo que é em si corrupto ou sujeito à corrupção. No entanto, tudo o que está fundamentado naquilo que é incorruptível, jamais será extinguido. E o que é incorruptível?! O amor! O amor não tem fim, e ele é por si mesmo difuso; deseja ser difundido, propagado, compartilhado, derramado. O amor não se contém em si mesmo, ele quer transbordar! E nós somos frutos desse transbordar do amor, de tal forma que o nosso alvo e propósito é o amor. E de tal forma que nada nos satisfaz se não antes o amor nos satisfazer. Nosso eu clama por amor em um grito de desespero, porque ficar aquém do amor é ficar aquém de si mesmo. Ao voltarmo-nos para o amor, há um encontro com nós mesmos e com aquilo que nos constituiu no princípio. Tudo então entra em perfeita harmonia e sintonia, pois está em concordância com o propósito da criação. Na criação, Deus nos gera e é por isso que estamos ligados à Deus e tudo o que carregamos reside nEle, de forma que só nEle encontramos aquilo que precisamos.

O homem decidiu se distanciar do Amor e tudo o que surgiu a posteriori foi angústia, dor e sofrimento. O que poderia ser feito para essa distância se extinguir se o homem tornou-se aquilo que há de mais incompatível com o amor? Não seria possível por méritos próprios ou esforço próprio que o homem se aproximasse novamente do amor, porque distante do amor ele estava, e portanto, não tinha força nenhuma; era corrupto e estava fundamentado sob a corrupção. Seria necessário que a solução viesse daquilo que tem mais força: o Amor. E o Amor, sendo doação e não se contendo em si mesmo, decide se doar. O Amor decide se doar em favor daqueles que tinham se afastado dele, mas que o desejavam mais do que tudo. O Amor aproxima os necessitados de amor para uma comunhão com Ele. A partir dessa comunhão, que ocorre entre o finito e o Infinito, todos as demais relações de amor, mesmo que finitas, tornam-se possíveis. Porque uma vez que fomos tocados pelo amor divino e somos por ele alimentado dia-a-dia, nada fará com que ele se contenha em si, e então ele desejará se transbordar, e muitos serão os tocados por esse amor nesse derramamento.

No princípio era o Amor, e o Amor se rebaixou ao finito para se doar pelos que eram finitos, tornando-os infinitos no amor.

Viver em comunhão com o amor: eis a máxima perfeição, o que há de mais sublime, mais amplo, mais delicioso e melhor no céu e na terra. 

Escrito por Beatriz Back

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

SOL E LUA: FENÔMENOS DO AMOR



Eu vi um homem que avistava o sol, exatamente como todos os homens o veem em seu sentido natural: como um borrão brilhante, nem um pouco límpido, no entanto, muito claro. Sua luz irradiante permitia o homem enxergar com clareza todas as demais coisas existentes. Porém, quando a noite aparecia, sua luz se desvanecia na lua, que embora fosse límpida aos seus olhos, impossibilitava o homem de enxergar o que havia ao seu redor, obscurecendo sua visão. Tudo se tornaram sombras e lampejos, comparado a lucidez do dia. Tudo então se tornou escuro, exceto a fonte de luz que permanecia no céu, a lua, mais que límpida, resplandecente e perceptivelmente cômoda. Mas, sua lucidez cegava o homem em relação ao restante, roubando o brilho de tudo o que havia; completamente oposta à sua fonte originária, que embora não fosse lúcida, abria os seus olhos, dando brilho à tudo o que há. Eram adversas em sua finalidade e adversárias àquele homem que as via, embora assim não fosse à outros que ao olharem compreendiam realmente e acolhiam a completude destes fenômenos que ocorrem todos os dias. Para homens de tal sensibilidade isso ocorria, e ocorre sempre, para revelar o propósito da real existência da vida humana, que deve abrir-se a transcendência, pois foi além dos limites da razão do homem que ela se originou. Para elas, tais fenômenos vêm como uma espécie de simbolismo, representando o amor que recebemos e o Amor a qual somos convidados a contemplar. Porém, aquele homem que vi negava sempre tal convite, fechando-se em um lugar de quatro paredes e fixando seu olhar em luzes que não eram de fontes secundárias, nem terciárias, mas muito mais distantes e perigosas. Dessa forma, o homem fechava todos os dias os olhos à beleza autêntica da vida, enquanto apreciava um mundo de beleza pobre e corruptível que o deixava doente. Pobre homem, que embora compreendesse o movimento da luz em termos da ciência, não podia o compreender em termos poéticos, e por isso mesmo, muito mais verdadeiros. Pobre homem, que embora compreendesse e até admirasse o movimento do sol e da lua, não era capaz de compreender o que estava por trás disso tudo. Não compreendia que nesses movimentos refletia-se o propósito atual e mais sublime para todos os homens: de ora olhar para dentro, ora olhar para fora; contemplando sempre a beleza do amor, embora em perspectivas diferentes.

Autoria de Beatriz Back.

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